Opinião: Fórmula mágica do sucesso é encontrada na Dinamarca

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Imaginem um mundo onde jogar não é só aceito, é encorajado. Um mundo onde focar nos esports não é uma grande coisa. Um mundo onde as grandes estrelas do esporte eletrônico ganham atenção nacional. Olha, você não precisa imaginar. Esse mundo existe.

Os programas e a infraestrutura da Dinamarca ajudaram a levar uma pequena nação escandinava de apenas 5,7 milhões de habitantes a se tornar uma das potências mundiais dos esports.

O país passou o ano de 2018, coletando uns dos maiores louvores da história das modalidades. O quadrakill de Caps que levou a Fnatic de seu compatriota Broxah à Grande Final do Mundial de League of Legends de 2018. O anti-eco de Lukas “Gla1ve” Rossander no Round 21 da disputa da final da ESL Pro League contra a Team Liquid. O doublekill espetacular de Niclas “Pengu” Mouritzen no overtime da Grande Final do Six Invitational contra a Evil Geniuses. Johan “N0tail” Sundstein e sua história de Cinderela até o título do The International, o Mundial de Dota 2.

Quadra kill do jogador Caps na semi final do Mundial de 2018

Podemos citar muito mais… Além de Gla1ve, atuações fenomenais de dupreeh, dev1ce, Andreas “Xyp9x” Højsleth, Emil “magisk” Reif pela Astralis sob o comando do vitorioso nato Danny “zonic” Sørensen; karrigan, ícone da FaZe; Martin “Wunder” Hansen sendo destaque da G2 Esports na campanha de semifinal do Mundial 2018.

Inúmeros imports como Jensen, Bjergsen, Lucas “Santorin” Larsen, Svenskeren sendo homens de sucesso em suas organizações; Henrik “Froggen” Hansen vencendo o European Masters sem dificuldade. Quando pensar em sucesso, pode ter certeza: a bandeira da Dinamarca estará lá marcando presença. Mas o que nos faz tão diferentes deles? Para entender a dominância dinamarquesa, precisamos discutir algumas outras coisinhas antes.

Quando falamos de Europa nos esports, a Dinamarca, com certeza, é a maior. Mas muito se deve ao seu sistema escolar, que permite aos nativos arriscarem-se em algo que não lhes dá certeza de futuro. A educação básica é muito bem gerida com impostos para os daneses e programas de educação secundária duram menos que aqui, em torno de 2 a 5 anos. Ou seja, é bem fácil se dedicar a projetos alternativos, como Esports. Isso, porém, muitos países da Europa fazem. A capacidade da Dinamarca de fazer os seus cidadãos perseguirem suas paixões é o que diferencia eles do resto.

Não vamos ser ingênuos, o fácil acesso aos computadores também ajudou. Não dá para chegar em um gueto de Campo Grande/MS e esperar que saiam moleques que desbanquem Dupreehs da vida sendo que nunca tiveram contato com uma simples geladeira, com um banheiro em suas escolas, quanto mais com um computador. É um ambiente que lhes permite jogar o jogo que quiserem, se é o que querem fazer com suas vidas.

Segundo a ITU (União Internacional de Telecomunicações), 95% dos daneses possuem acesso a computadores, acima da média europeia de 79% e do Brasil, com 46%. Além disso, 97% dos daneses utilizam a Internet, comparados a 77% da média da Europa e 64% dos brasileiros. Eles estão praticamente maquinizados para lazer/serviço. Muitos de nós brasileiros, temos que acordar às 6h para colocar um prato de comida na mesa. É uma diferença significativa. Isso parece ser a fonte do sucesso atual dinamarquês, mas e sobre o futuro das estrelas do país?

Time dinamarquês de CS, Astralis, ganhou os últimos 2 Major

É até simples. O país todo se mobiliza. A Astralis foi entrevistada em rede nacional. Escolas ensinam programas de incentivo aos esports. Em 2017, começou a existir um curso de caminhos profissionais nos esportes eletrônicos oferecido pelo Ginásio Privado de Copenhague. Sete cursos foram instaurados nas políticas escolares da Dinamarca desde então.

Os jovens daneses que terminaram sua escola primária possuem condições de ter um ano de separação entre o primário e o ensino médio e são frequentemente apoiados por seus pais, pela economia estabilizada e pela exposição midiática dos jogadores. Isso faz criar uma atitude diferente em relação a jogar profissionalmente na Dinamarca. Para muitos pais, jogar simplesmente não tem a mesma cara. Não é sobre ficar ociosamente sentado nos porões de madrugada, e sim, construir seus laços com a comunidade do jogo para crescer cada vez mais, afinal, é uma oportunidade de trabalho como qualquer outra. Os jovens (não só lá) almejam aquilo que lhes é palpável e, ao mesmo tempo, é divertido. É um ambiente social, onde você encontra e conhece amigos, tudo o que não era possível há uns 10 anos.

Agora que jovens talentosos desenvolveram o cenário, o governo dinamarquês quer ter certeza que o cenário sobreviva. Além dos supracitados auxílios financeiros e cursos, temos o Campus Vejle, um lugar que mistura preparação de esports com atividades físicas. Lá, os jogadores são treinados por figuras importantes do cenário e outros entusiastas. Muitos profissionais do Counter Strike: Global Offensive deram suas passadas nos cursos e no Vejle, como Casper “cadiaN” Møller, que já deu uma aula completa sobre o mapa Nuke no campus. Aulas de esports não são ideias novas, porém, e vários outros lugares no mundo oferecem isso. É só um dos jeitos do governo danês auxiliar os sonhadores.

O prefeito de Copenhague ofereceu aos jogadores da Astralis um banquete de café da manhã na prefeitura, não só uma vez, mas DUAS. Essas tradições são reservadas a convidados ilustres para mostrar uma conquista grande, como os campeões da Stanley Cup e do Super Bowl visitando a Casa Branca. E isso NÃO acontece. O primeiro-ministro Lars Løkke Rasmussen fez o discurso de abertura da BLAST Pro Series Copenhague neste ano, declarando que os jogadores são desportistas e apoiou os jogadores devidamente.

O que faz, contudo, o governo da Dinamarca se interessar em esports? Não vamos ser inocentes e falar que o fazem por bondade e caridade…

Astralis tem uma das melhores equipes de CS:GO da história. Quando veem equipes se aliando a empresas para serem os melhores do mundo e representar os interesses da nação, o governo abraça. Isso move a economia, já rica e estabilizada para prestar atenção em quaisquer cenários de movimento significante. Outras equipes já conseguiram orgulho para os daneses, mas para o governo, a Astralis é diferente. E realmente é. Outro lado aponta também que, muitos estudantes que não terminariam o ensino médio por quaisquer motivos que fossem, podem seguir uma carreira profissional (com a permanência nas escolas, também) e gerar dinheiro para o país, com impostos e marketing, fechando o ciclo de sucesso.

Até a North, organização de Esports de lá, foi fundada por uma empresa de cinema em parceria com o FC København, um time que frequentemente se encontra na UEFA Champions League, o segundo maior torneio de futebol de clubes (O maior, obviamente, é a Libertadores). Lá, possuem infraestrutura e economia estabilizada o suficiente para arriscar-se em negócios. Nem modelo de franquias podemos oferecer aqui no Brasil, pela falta de investimentos reais por risco e por problemas macroeconômicos (como a razão Real/Euro). Para o futuro, temos a Origen de Martin “Deficio” Lynge como organização na LoL European Championship, para representar o orgulho nacional e um dos times permanentes em uma das maiores ligas de esporte eletrônico do mundo.

Vemos também uma mobilização econômica por parte da juventude dinamarquesa. Pengu, estrela do Rainbow Six, queria ser profissional da modalidade desde os seus 12 anos. Imaginem nós, leitores (e eu), com 12 anos, conversando com seus pais sobre querer ser um profissional de Clash Royale. Seríamos massacrados. Muitas crianças de 12 anos não sabem nem do que se trata os Esports, estão ocupados com carvoarias e vendas informais. Minha mãe mesmo já me critica um pouco por não focar no Enem e ficar escrevendo matérias sobre esportes eletrônicos, com 18 anos e com uma estabilidade financeira relativamente boa. Quero ser um médico veterinário, mas se pudesse seguir tranquilamente com palpites e cornetas por aqui, mesmo recebendo um salário menor, eu viveria assim. É sobre paixão. Os pais de Pengu, porém, viram Bjergsen e Karrigan na televisão, viram a Astralis tomando um cafézinho com o primeiro-ministro. Nós só vemos tragédias, corrupção e futebol. É cultural. Ao menos se outros esportes fossem valorizados…

Como tudo que se destaca em um país singular, é sobre infraestrutura. EUA e basquete. Brasil e futebol. E, talvez um dia, Dinamarca e esports.

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Se o mouse soubesse o encanto que nos traz, não passaria a vida rodando de mão em mão. Colunista da MPB Esports.

Erick Kratz

Se o mouse soubesse o encanto que nos traz, não passaria a vida rodando de mão em mão. Colunista da MPB Esports.

Um comentário em “Opinião: Fórmula mágica do sucesso é encontrada na Dinamarca

  • 27 de março de 2019 em 14:00
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    “95% dos daneses possuem acesso a computadores, acima da média europeia de 79% e do Brasil, com 46%. Além disso, 97% dos daneses utilizam a Internet, comparados a 77% da média da Europa e 64% dos brasileiros.”

    Curioso que mais pessoas tenham acesso à internet (97% dos dinamarqueses e 64% dos brasileiros) do que a computadores (95% dos dinamarqueses e 46% dos brasileiros).

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