Por dentro do mundo da mídia social: uma entrevista com TL Scarleto

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Passamos cada vez mais tempo na Internet, nas redes sociais, buscando interação ou consumir informação das coisas que gostamos. O cenário de esports gira bastante ao redor das mídias sociais. Times, organizações, fazendo sua presença no mundo virtual, para manter o ciclo de interação com a torcida, apoiadores, clientes, com o seu público alvo. E ser um social media, ainda, é uma profissão nova, que ainda gera dúvidas quanto à seu papel como profissional ou gerar ideias equivocadas sobre o assunto.

Por causa disso, nós da equipe MPBe, buscamos entrevistar José Victor “Scarleto” Gimenez, atual profissional de mídias sociais da Team Liquid e conhecer um pouco da sua história, as opiniões dele quanto a profissional e sobre o que é ser social media.

Erick Kratz: Então, queria começar falando não da profissão, mas sim de ti. Como foi sua trajetória até chegar à Team Liquid?

SCARLETO: Sempre fui fã de esports desde que conheci o nicho lá em 2012, com o League of Legends, então, era natural que eu me interessasse pelo cenário como um todo, e sempre buscando entender como tudo funcionava, entrei em contato com o Alexandre “DrPuppet” Weber, em 2015, na época que era coach da KLG, para entender como o time funcionava, devido à sua performance surpreendente do International Wildcard (antiga competição de classificação aos torneios majors da Riot Games).

Desde então, nos tornamos amigos, nos ajudávamos. E, desde sempre, ele via potencial em mim, pelo jeito que eu entendia o cenário e interagia nas redes sociais como um todo. Ele resolveu me oferecer o cargo de encarregado de mídia social na organização que ele estava criando temporariamente para disputar o primeiro Circuito Desafiante fechado do Brasil em Janeiro de 2016, a Robot E-sports Team. Foi um sucesso logo no primeiro mês, até os próprios narradores exaltavam meu trabalho nas redes sociais da organização, até que, em abril do mesmo ano, a nossa vaga foi vendida para a INTZ, e eu fui chamado para integrar a equipe do CNB e-Sports Club, onde cresci bastante como profissional, ganhei uma exposição maior, e fiquei por 1 ano e meio aproximadamente, até eu decidir que era hora de procurar novos ares.

E, em Janeiro do ano passado, um colega meu de profissão, Mateus Portilho (responsável pelas mídias sociais da organização norte-americana Cloud9), me deu um contato interno da equipe de mídias da Team Liquid, que havia adquirido recentemente uma lineup de Rainbow Six Siege completamente brasileira. Enviei um email, fiz uma entrevista na semana seguinte, gostaram do meu histórico e estilo de trabalho, e em três meses de testes, fui admitido e contratado pela organização oficialmente. Essa semana completei um ano sob o escudo da Liquid, e não poderia estar mais satisfeito.

Kratz: Do que você mais gosta no seu trabalho?

SCARLETO: Uma resposta complexa para uma pergunta complexa, pois gosto de muitas coisas. Mas, com certeza, o que eu mais gosto é de criar laços. Ao mesmo tempo que é uma das partes mais difíceis da função, mexer e aflorar a paixão das pessoas por algo que elas simplesmente se identificam é incrível.

Ver que, perdendo ou vencendo, a nossa comunidade permanece unida, permanece torcendo, é sensacional. Ninguém é pago ou tem a obrigação de torcer, mas presenciar diariamente milhares de pessoas unidas por um vínculo que você construiu, é o que eu mais gosto e isso faz tudo valer a pena.

Kratz: Como você avaliaria a parte de social media do Brasil?

SCARLETO: A melhor palavra para definir a situação seria desleixo. Temos excelentes profissionais, pois o brasileiro por si só é comunicativo, tem boa lábia, mas o desleixo não vem daí, e sim da mentalidade de muitas direções de organizações, que não julgam que é uma área que necessita de muito investimento, ou até mesmo que não exige confiança no profissional que contratam. Já vimos inúmeros casos de sucesso onde um bom profissional pode designar sua função com confiança e excelência, mas por outro lado, vemos, de tempos em tempos, situações extremamente desconfortáveis.

Não é à toa que sempre existe o “meme” de chamar todo profissional de mídias de “sobrinho do dono” ou “estagiário”, pois é visto popularmente como algo de pouca importância, ou algo que qualquer um poderia fazer. No momento em que entenderem a importância do profissional de marketing digital, especialmente em mídias sociais, virão investimentos maiores, mais torcedores para seu clube, mais números, e consequentemente uma maior renda. Enfim, esse é o grande diferencial que vejo das organizações estrangeiras para as de cá: mentalidade. Não só com mídias, mas em um âmbito geral.

Kratz: Existe algum exemplo desse desleixo relatado na questão das organizações brasileiras? Qual organização brasileira possui uma divisão de social media que você admira?

SCARLETO: Sim, podemos citar o caso recente da atual campeã brasileira de League of Legends, a KaBuM, que fez um bom trabalho de mídias durante o Mundial de 2018, mas confrontou um torcedor, após uma partida ruim na atual etapa do CBLoL. Isso não se faz, é desrespeito. Torcedor está lá por paixão, para torcer, para vibrar. Se ele xingou, é porque, tanto quanto quem não xingou, ele quer ver o time vencendo. Pessoas são diferentes e reagem diferente. É trabalho de longo prazo do social media de desenvolver fidelidade entre o público e a marca que ele representa, e isso é ir pela direção contrária.

Uma equipe de mídias que gosto bastante de ver no Brasil é a da FURIA Esports e do Flamengo eSports. Sinto que, eles desempenham sua função e alcançam seus objetivos muito bem, não mantendo aquele estilo “quadradão”, fomentando a paixão pela organização a cada jogo (no caso do Flamengo, cultivando o saudosismo pela história do clube para as novas gerações), mas também não faltando com respeito nas provocações e publicações descontraídas. Respeito bastante a parte de comunicação dessas equipes.

Kratz: Existe alguma outra função que você tenha pensado em desempenhar no mundo dos esports?

SCARLETO: No começo já quis ser jogador, como muitos que conhecem o cenário, sempre fui um bom atirador no LoL, mas com o tempo, vi que não era meu lugar e redirecionei meu sonho para algo que me identificava mais. Durante meu período de CNB, também estudei um pouco de motion design, gostava de animar imagens estáticas no mesmo estilo das telas de login do League of Legends, e inclusive inseri muito disso na minha época de CNB. Hoje deixei isso um pouco de lado, hora ou outra ainda brinco de animar, mas apenas por hobby.

Kratz: Então sua área é essa mesmo e veio pra ficar, né? (risos)

SCARLETO: Com certeza. Se algum dia deixar de trabalhar com mídias sociais, ainda estarei envolvido no marketing digital, e de preferência, com esports. Amo esse meio e tudo o que envolve minha função, sinceramente.

Kratz: Alguma dica pra quem almeja ser social media?

SCARLETO: Existem três pilares para quem deseja desempenhar a função, que são, primeiro, o domínio da língua na qual atua. É importante ter bom conhecimento de regras, pronomes e articulações referentes ao seu público alvo, o que já dá gancho para o próximo tópico. Conhecer e entender seu público alvo. Com isso, saberás como se portar, que objetivos tomar, como se comunicar, que padrões e dados deve observar e como aplicar esse conhecimento na próxima oportunidade em que for necessário. Sem uma bússola, o barco não tem direcionamento no meio do mar (risos).

Por fim, o profissional necessita entender que não é o protagonista. Ele representa uma marca, uma bandeira, mas mesmo que seja ele por trás, a organização vem sempre na frente. A melhor maneira de se conseguir reconhecimento, mesmo trabalhando por trás da cortina, é pela excelência do seu trabalho. Ele tem que ser tão bom ao ponto das pessoas quererem saber quem está por trás daquilo. O profissional de mídias sociais não é um dos personagens principais, mas é responsável pela narrativa do conto que envolve os protagonistas. Se a história for boa, o autor é sempre reconhecido. Tudo em seu tempo.

Kratz: Por fim, um recado para quem está lendo esta entrevista.

SCARLETO: Gostaria de agradecer a todos que leram até aqui, e mesmo que provavelmente não sejam tão engajados com a profissão, espero que tenham aproveitado lendo um pouco da minha história e opiniões. O carinho que recebo diariamente é incrível, e pretendo sempre entregar o melhor possível para vocês. Eu posso trabalhar diretamente com a paixão de muitos, mas vocês também sabem deixar todos nós, que trabalhamos na indústria dos esports, apaixonados. Não falo só pela cavalaria, mas por todas as torcidas. Meus mais sinceros agradecimentos, vocês é quem fazem isso tudo ter sentido e valer a pena.

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Químico, tenor, flamenguista, Gunner, Fnatic, Blumer e Panthers/CLG/Afreeca fan. Mono Pyke. Claramente sem clubismo. Só sei dar opinião, informar que é bom...

Erick Kratz

Químico, tenor, flamenguista, Gunner, Fnatic, Blumer e Panthers/CLG/Afreeca fan. Mono Pyke. Claramente sem clubismo. Só sei dar opinião, informar que é bom...

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